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  • Renata Bento

QUANDO A PALAVRA DITA PELO ADOLESCENTE SE TORNA VERDADE ABSOLUTA

Atualizado: 16 de jul. de 2020


Foto: Pexels

 

Escutar é diferente de ouvir, já que pressupõe disponibilidade e sensibilidade. Escutar o adolescente é algo peculiar que necessita de um conhecimento a cerca do que representa essa fase da adolescência. Precisa ainda de entendimento e tradução do contexto no qual está inserido, isto é, além daquilo que é dito.


Observa-se com frequência, em processos judiciais, genitores e até mesmo magistrados “levando ao pé da letra” as palavras do adolescente, sem levar em consideração, através de uma investigação mais profunda, o enredo, os aspectos familiares, a personalidade e a decodificação da mensagem dita.


É comum observar que deixam a cargo de jovens a decisão, por exemplo, de com quem irá residir quando há discussão a respeito da guarda, principalmente se o jovem é articulado e transmite algo que pode ser interpretado como amadurecimento. Como se dissessem: “ele(a) tem maturidade suficiente para escolher com quem irá residir e como fará a convivência com o outro genitor”. É um erro não verificar o porquê e de onde parte esse desejo, uma vez que se deve observar como funciona emocionalmente esse adolescente, em que situação encontra-se seu duplo referencial, pai e mãe, e como esses pais lidam com suas funções parentais. Nota-se que esse tipo de demanda direcionada ao jovem ocorre, mais facilmente, quando há decadência das funções parentais ou aliança do adolescente com um dos genitores.


O processo da adolescência pode ser visto como a travessia de uma ponte com inúmeros obstáculos e desafios, onde se parte da infância rumo à vida adulta. Durante esse percurso, muitos incidentes podem ocorrer; cabe aos pais ou cuidadores a supervisão e a contenção dos impulsos destrutivos bem como a troca afetiva e a intimidade não confundidas com invasão; isso tem a ver com a aproximação e o cuidado. Sabe-se ainda que o entendimento de tudo isso é bastante complexo a um adulto quiçá a um adolescente e, quando ocorre a separação dos pais nessa época, torna-se mais difícil a compreensão. É durante essa travessia que a adolescência (aspectos emocionais) junto com a puberdade (aspectos biológicos) promovem uma série de mudanças no jovem.


A adolescência como fase instável necessita que seu ambiente representado pela família seja estável. Essa estabilidade e segurança do ambiente servirão de anteparo para os aspectos mais agressivos e impulsivos.


A aparência potente do adolescente serve para encobrir sua fragilidade, bastante natural, cercada de medos e ansiedades comuns a um processo de identidade em fase de amadurecimento.


Na experiência clínica em consultório e/ou no estudo pericial no judiciário, observa-se que as disputas por guarda neste período tendem a ser muito complicadas.


O adolescente, como bom hedonista, deseja liberdade, busca fazer suas predileções baseadas no imediatismo do aqui e agora. E por isso tenderá a apontar sua escolha parental para onde entende que terá maior controle sobre o(a) genitor (a) e benefícios, nem sempre sendo o melhor para ele. Por outro lado, os pais acreditam na força do adolescente, como se adultos fossem. E, quando acreditam cegamente, deixam de observar que essa fase de transição é delicada e precisa de muita supervisão. Como se eles, pais, se deslocassem de seu lugar de adultos e colocassem o adolescente diante do lugar que pertence a eles como pais.


É preciso estar atento e ir além do desejo objetivo de um adolescente. Torna-se necessário que se tenha uma escuta diferenciada. Para isso, é importante que os pais saibam que um adolescente não tem competência para resolver assuntos que são deles.


Na adolescência existe um psiquismo em turbulência que não pode ser confundido com as turbulências de um processo de divórcio dos adultos. Pode parecer estranho, mas o adolescente não tem maturidade , por isso certas decisões durante essa época devem ser inteiramente de responsabilidade dos adultos.

É possível que, ao liberá-los desse lugar, esses adolescentes sintam-se aliviados por terem sido vistos como meninos ou meninas carentes e desamparados, escondidos em suas pseudomaturidades utilizadas como defesa, necessitados da orientação e da contenção de seus pais e não o contrário. É preciso ter um olhar bem mais amplo do que somente aquilo que se mostra aos olhos desavisados. 


Cabe ao magistrado, quando se depara com essa demanda, encaminhar o adolescente para estudo psicológico e não deixar depositado nele uma decisão a qual não pode sustentar emocionalmente, fazendo-se valer apenas da vontade consciente; é preciso investigar de onde partiu o real desejo.

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