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O Brasil e a epidemia do sofrimento psíquico

  • Foto do escritor: Renata Bento
    Renata Bento
  • 17 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Em um país marcado por desigualdades históricas, falar sobre saúde mental ainda é, para muitos, um tabu envolto em silêncio e estigma. No entanto, os números crescentes de adoecimento psíquico já não permitem ignorar o problema. Transtornos como depressão, ansiedade, síndrome de burnout e comportamentos autodestrutivos não apenas se tornaram comuns, mas passaram a moldar a rotina de milhares de brasileiros. A crise é real, está entre nós , e pede um debate urgente, honesto e corajoso.


Em 2025, o Brasil enfrenta uma crise de saúde mental diariamente nos corredores dos hospitais, nas licenças de trabalho, nas escolas e dentro de muitos lares. É um sofrimento silencioso, porém devastador, que se materializa em números alarmantes e, mais que isso, em vidas profundamente abaladas.


Segundo dados do Boletim Estatístico da Previdência Social (2024), mais de 440 mil benefícios por incapacidade foram concedidos pelo INSS no último ano devido a transtornos mentais e comportamentais. É o dobro do registrado há uma década. Entre os diagnósticos mais frequentes, estão a ansiedade (141.414 casos) e os episódios depressivos (113.604) , reveladores da sobrecarga emocional que atinge milhões de brasileiros.


Essa realidade, no entanto, não surge do acaso. A crise tem raízes sociais, econômicas e culturais profundas. A insegurança financeira, o endividamento crescente e o desamparo institucional fragilizam a saúde emocional da população. No mundo do trabalho, metas inatingíveis, jornadas exaustivas e ambientes de pressão constante agravam a sensação de esgotamento.

Além disso, vivemos conectados o tempo todo. A

, que elimina fronteiras entre o pessoal e o profissional , não apenas esgota, mas nos coloca em um estado constante de alerta, comparação e produtividade forçada. A consequência é clara: o descanso virou um luxo, e o lazer, uma função performática.


Mas talvez nenhum grupo sinta com tanta intensidade os efeitos dessa avalanche quanto os jovens. Conforme o Relatório Global de Saúde Mental da OMS (2023), mais de 50% dos transtornos mentais surgem antes dos 14 anos, e 75% se instalam até os 24. A juventude brasileira enfrenta uma combinação tóxica: exigência de alta performance acadêmica, instabilidade no mercado de trabalho e um ideal inatingível de sucesso propagado pelas redes sociais.


Quando não há espaço para errar, para conversar, para se frustrar ou simplesmente descansar, o sofrimento encontra saídas perigosas: automutilações, distúrbios do sono, ansiedade crônica, depressão e tentativas de suicídio , como revelam dados do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes do Ministério da Saúde (2023).


Esse sofrimento não se resolve apenas com diagnósticos ou medicamentos. Ele exige uma profunda revisão de valores: como vivemos, como trabalhamos e como nos relacionamos. Em outras palavras, o enfrentamento da crise de saúde mental não é tarefa apenas dos profissionais de saúde , é uma responsabilidade coletiva.


É preciso garantir políticas públicas consistentes, ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental e valorizar o papel do vínculo, do diálogo, da escuta e do acolhimento. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecê-lo como legítimo e digno de atenção, seja nas escolas, nos espaços de trabalho ou nas comunidades.


Enquanto fingirmos normalidade diante de números tão eloquentes, continuaremos perdendo mais que produtividade: estaremos perdendo vidas, afetos e possibilidades de futuro.


Enfrentar a crise da saúde mental no Brasil exige mais do que medidas paliativas ou campanhas sazonais. É necessário compromisso político, investimento contínuo em saúde pública e uma mudança estrutural nas políticas de bem-estar social.

A saúde mental deve ser tratada como prioridade transversal: ligada à educação, ao trabalho, à habitação, à cultura e ao acesso a direitos básicos. Nenhum protocolo clínico será suficiente enquanto mantivermos uma sociedade que adoece seus cidadãos diariamente, com modelos de vida insustentáveis e relações atravessadas pela desigualdade, solidão e desempenho constante.


Precisamos romper com a lógica de que cuidar da saúde mental é um luxo individual. É um direito coletivo, e um dever do Estado, das instituições e da sociedade civil. O Brasil só avançará como nação quando garantir que seus cidadãos possam viver com dignidade e isso inclui o direito ao descanso, à escuta, ao cuidado e ao pertencimento. Tratar a saúde mental como pauta central do presente é, acima de tudo, um compromisso com o futuro.

 
 
 

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