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  • Renata Bento

O PERIGO MORA DENTRO DE CASA – uso desmedido da tecnologia por crianças e adolescentes

Criança mexendo no celular com edredom cobrindo a cabeça
Foto: Freepik

Andreia ficou desorientada quando viu, no celular de sua filha de 11 anos, uma série de fotos de partes íntimas que ela havia recebido de uma pessoa estranha, adulta, do sexo masculino. Ao revirar as mensagens, descobriu que a menina também havia enviado fotos suas em posições íntimas. As mensagens tinham conteúdo de manipulação explícita e incitava o medo na criança ao pedir segredo sobre as “intimidades deles”.


Os pais de Breno, adolescente de 14 anos, iniciaram a terapia de família, pois sentiam muita culpa no que estava acontecendo com o filho. A pergunta era: como foi que não vimos isso? A mãe de Breno havia deixado o mercado financeiro assim que o primeiro filho nasceu. Para ela, essa é sua maior função, cuidar dos filhos. Estava muito frustrada na sua empreitada. Breno, começou a mentir em casa para articular saídas às escondidas dos pais. A desculpa é que era para realizar trabalho em grupo com os colegas da escola. Quando as notas baixas começaram a chegar, um alerta acendeu para os pais. Ao se darem conta, descobriram que o menino fazia parte de grupos online que se reuniam para fazer competição de quem tomava maior quantidade de vodka, de uma só vez.


Essas histórias são fictícias, mas baseadas em fatos reais. Situações como essas podem ser mais comuns do que se pensa e essas descrições nos ajudam a refletir e a abandonar verdades absolutas acerca da natureza humana. E aqui, nos servem para ilustrar o que gostaria de conversar hoje sobre a importância dos pais na supervisão do dia-a-dia dos filhos com o uso da tecnologia. Talvez a “sorte” dessas personagens citadas acima, era a de terem pais que conseguiram descobrir o que estava ocorrendo antes do estrago maior. Pais perfeitos não têm esse tipo de problema? Pais perfeitos não têm esse ou outro tipo de problema simplesmente porque esses pais não existem. Abandonemos verdades absolutas para abrir espaço para o pensar.


Hoje as crianças já nascem com esse novo universo tecnológico em pleno funcionamento. É uma geração superestimulada visualmente, tecnologicamente, mas que corre o risco de não se conectar com o que existe de mais humano em nós, que é a relação consigo própria e com o outro. Essa relação é permeada pelos sentimentos, pelas emoções, pelas interações sociais; são os vínculos emocionais que vão proporcionando essas ligações e intimidade entre nossos sentimentos e nossas emoções. São esses os artigos difíceis dessa geração e tão importantes para o amadurecimento.

Crianças e adolescentes correm o risco de se perderem dentro da própria casa ao serem expostos intensamente ao mundo virtual em detrimento do calor humano das experiências afetivas.


A rede social não é um bom estímulo e não é saudável para a criança, diferente de alguma atividade pedagógica e lúdica que a criança possa exercer no computador, como por exemplo: atividade interativa, jogos infantis, músicas infantis; sempre mesclado com atividades manuais, jogos, pintura, desenhos, entre outros.


A criança precisa estar constantemente sob supervisão de um adulto, seja na internet ou fora dela. Como a internet está disponível em casa e a criança está ao alcance dos olhos durante o acesso, cria-se uma ilusão de que ela está segura. Se os pais não se aproximarem para limitar o tempo e o acesso e saber por quais caminhos virtuais a criança está percorrendo torna-se muito arriscado. Nos jogos online para crianças existem chats onde pessoas anônimas interagem livremente. Trocam números de telefones, e podem abrir espaço para a comunicação através de outros meios. E como saber? São crianças ou adultos disfarçados de criança? Você sabe? Eu também não sei, nós não sabemos. É muito fácil manipular uma criança, justamente porque ela espera que o adulto cuide dela, ela confia.


As redes sociais não devem estar disponíveis para a criança porque elas não têm competência para distinguir o que é bom ou ruim, o que é destrutivo do que é construtivo. As crianças ficam diante de uma tela com inúmeras possibilidades e informações falsas e verdadeiras que super estimulam e estão sujeitas a todo tipo de perigo. Quando se cria um perfil em uma rede social, cria-se uma espécie de identidade virtual, isso ocorre de uma maneira ilusória, sendo que a criança ainda não constituiu sua própria identidade e autonomia tão necessárias para sua vida.

E na adolescência se complica um pouco mais porque o mundo do adolescente muitas vezes é o seu quarto fechado, e os pais têm mais dificuldade em se aproximar, diferente da criança. Ao mesmo tempo em que quer e precisa de privacidade, precisa também de um adulto seguro de sua função que supervisione e oriente e que mostre que os limites existem. E que interrompa sim, em caso de perceber algum perigo para o adolescente. Pois é desse espaço de forma virtual, que o adolescente faz suas interações com o mundo externo. Embora o adolescente tenha mais experiência que uma criança, é tão vulnerável quanto. Se a criança necessita de aprovação dos pais, o adolescente precisa de aprovação do grupo. O adolescente ainda não tem sua identidade formada e bem estabelecida e a opinião e aceitação do grupo são essenciais para se sentir pertencendo àquela tribo. As redes sociais potencializam aspectos positivos e negativos. E se o adolescente está muito frágil, pode funcionar como um disparador, como um gatilho para os sentimentos mais hostis em relação a si próprio e também ao outro.


Internet é terra de ninguém, e deixar a criança ou adolescente com livre acesso, é jogá-lo aos leões. A força mobilizadora dos sentimentos que experimentamos em uma interação virtual, são tão reais quanto em uma interação presencial.

Na rede social tudo fica pronto muito rápido. Se está feio se usa uma ferramenta para retocar, e a vida não funciona assim. É difícil ter que lidar com a realidade, com as frustrações diárias, com a velocidade humana diferente da velocidade da tecnologia. O ser humano precisa de tempo de maturação, do contato com outra mente afetiva para se desenvolver; isso exige calma, paciência e persistência.


A vida fora da rede social exige trabalho contínuo e as coisas são sem retoques, são como são, e ainda assim, pode parecer estranho, mas, é nessa realidade frustrante e pouco idealizada que se pode ser feliz.

As redes sociais estão disponíveis e em pleno vapor, assim como o avanço da tecnologia. Isso, se usado de forma positiva, pode ser uma excelente ferramenta porque facilita a vida e as atividades cotidianas.

E é exatamente por isso que tem tanto poder e, exatamente por isso também, tão perigoso para os jovens. Porque tem o poder de influenciar alguém que não tem competência ou capacidade de argumentar e entender as mensagens contidas nessas comunicações; será necessário um adulto que ajude a decodificar ou a criança poderá acreditar que aquela realidade é que é a boa, afastando-a de viver a própria vida.


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