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  • Renata Bento

EI, MANDA NUDES! A PRÁTICA DE SEXTING ENTRE ADOLESCENTES E O PAPEL DOS PAIS

Atualizado: 16 de jul. de 2020


Os jovens de hoje já nasceram com a tecnologia em seu cotidiano; o que pode ser muito bom em vários aspectos, como, por exemplo, ajudar no processo de pesquisa, aprendizado e conhecimento sobre diversos assuntos. Mas de forma negativa, pode deturpar a realidade e potencializar um modo superficial, fugaz e vazio de se relacionar baseado naquilo que veem, acreditam e assimilam como sendo o modelo a ser seguido. Além disso, coloca-os em contato com situações como violência, drogas e sexo, próprios do mundo adulto ou próprios de um modo de funcionamento agressivo e destrutivo. Há um excesso de velocidade da informação misturado com a facilidade de acesso que prejudicam a experiência do pensar e do sentir e que pode atrapalhar todo percurso de amadurecimento tão necessário para a vida adulta, principalmente, quando com tão pouca idade, deparam-se com pornografia; os adolescentes precisam ser vistos e acompanhados.


Atualmente tem se observada entre os adolescentes a prática de envio e/ou pedidos de fotos, vídeos de nudez ou apenas de partes do corpo; são os chamados nudes ou sexting. O termo sexting surgiu da junção entre “sex” (sexo) e “text” (texting) ou, sexo por mensagem de texto. De forma mais ampla, significa o envio de fotos, vídeos e áudios de conteúdo erótico e sexual. Tem-se notícias de que essa forma de comunicação, criada por jovens, surgiu nos Estados Unidos em 2005 e chegou ao Brasil em 2009, ou seja, é um fenômeno também no auge de sua ‘adolescência’, bem da idade dos nossos jovens hoje. É importante ressaltar que esse tipo de prática ocorre com meninos e meninas. Há uma dificuldade nessa época em lidar com a sexualidade e com a própria agressividade, ou seja, com tudo o que se sente com a chegada da puberdade e, se existe uma convivência autoritária em casa, tende a piorar a busca por escapes virtuais.


A puberdade é um período compreendido como central, é o palco onde será encenada a infância adormecida durante o período de latência, é onde se atualizam e acordam escolhas e conflitos dos restos do infantil não elaborado.


É muito comum os pais procurarem-me aflitos depois de terem visto ou sabido sobre mensagens recebidas e/ou enviadas dos filhos (as) para grupos ou amigos e amigas que continham “teor adulto”; ou ainda chocados pelo fato de terem sido chamados na escola para serem notificados sobre o que o(a) filho (a) tem escrito, recebido e compartilhado ultimamente. Episódios como esse têm ocorrido com frequência e têm sido observados cada vez mais cedo, em idades que antecedem a adolescência entre 10 e 12 anos, às vezes ainda mais precocemente. Nem biológica nem emocionalmente as crianças, mesmo que as vésperas da adolescência, possuem competência para lidar com o mundo adulto; há ainda uma grande confusão de identidade para ser elaborada. Os pais ficam assustados ao constatarem que as crianças dessa idade comunicam-se como se fossem adultos com mensagens de conteúdo erótico. Mas meu (minha) filho (a) não faz isso! A negação, a ingenuidade e a frustração parecem ofuscar os olhos dos pais e até faz com que se esqueçam de que um dia também foram adolescentes.


A interação através das mídias sociais, por um lado possibilita o contato, mas por outro pode alterar significativamente a forma de se relacionar e, nesse caso, convoca maior atenção e necessidade de intimidade entre pais e filhos. É nesse espaço de transição entre passado e futuro que se vive no presente a experiência de adolescer. É uma travessia solitária e complexa para se chegar à vida adulta onde eles não devem ser deixados, entregues, largados à própria sorte.


Observa-se que crianças e adolescentes que crescem em uma família cuja relação é pautada no diálogo, onde falar de sexualidade é algo que faz parte da vida, têm menos chances de enveredar por esses caminhos mais tortuosos. Aprendem desde cedo a respeitar o próprio corpo e o do outro.

Uma das principais observações que considero importante é a constatação da ausência de diálogo a respeito da sexualidade que existe desde sempre em nossa vida, do nascimento até a morte.


Conversar sobre sexualidade em casa ainda é um tabu, principalmente entre pais e filhos (as). Os pais sentem dificuldades em abrir uma conversa sobre o tema, seja porque estão inseguros ou envergonhados, seja porque ignoram que a criança e o adolescente têm sexualidade. São diversos os motivos para escapar do assunto, até mesmo pensam que se falar sobre isso estarão incentivando ao sexo.


Sexo e sexualidade são assuntos diferentes; sexo é coisa de adulto e sexualidade é coisa de gente. O sexo faz parte e é uma forma de expressar a sexualidade. Assim como o nude e/ou sexting também podem ser considerados expressões da sexualidade.


Sexo diz respeito à relação sexual, diferente de sexualidade que é um conceito muito mais amplo que engloba prazer, afetividade, corpo, toque, fantasias, atração; assim como a expressão da comunicação verbal e não verbal também, ou seja, o sorriso, o olhar, o jeito. Além disso, outros elementos fazem parte da sexualidade que são: identidade sexual, identidade de gênero e orientação sexual. Reparem como o tema é vasto e necessário de ser conversado. É importante falar sobre as modificações corporais, sobre as sensações prazerosas que o corpo nos dá e, principalmente, orientar a criança e o adolescente de que isso é normal e que faz parte de seu amadurecimento.


Falar sobre sexualidade não é explicar ao filho (a) como é ter uma relação sexual. Isso ele (a) saberá fazer quando chegar a hora, além de ainda conversar com os(as) amigos (as) sobre o assunto; não é uma conversa erótica ou que erotiza, ao contrário, conversar sobre sexualidade fortalece emocionalmente as crianças e jovens e contribui para o amadurecimento afetivo e intelectual para que não se deixem afetar negativamente por uma erotização desenfreada e vazia, para que nessa travessia solitária da adolescência consigam fazer melhores escolhas.

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