• Renata Bento

AFETIVIDADE E CRIATIVIDADE

Atualizado: 9 de Ago de 2020



Nem com muita imaginação poderíamos cogitar o que estamos passando agora; a presença de um vírus que fez o mundo parar.

Antes éramos livres para ir e vir, agora estamos todos mobilizados emocionalmente pela perda da liberdade; devemos nos manter afastados fisicamente das pessoas. Somos seres sociais e essa distância física impede o contato caloroso com amigos e parentes causando enorme sofrimento.

Diante da privação da liberdade se experimenta uma espécie de prisão domiciliar. Uns em castelos, outros nem tanto, e muitos com situação menos favorecida; mas, sobretudo, parece ser comum o fato de que todos nós estamos inseguros; atravessando uma ponte frágil, em que não sabemos seu tamanho, o tempo de duração da travessia e tampouco temos noção para onde estamos indo. A fragilidade humana está escancarada, e precisamos lidar com ela.


Tivemos que fechar os nossos consultórios e criar um novo espaço levando conosco aquilo que temos dentro, o que somos, através do nosso ‘setting interno’.

Se como analistas prezamos pela intimidade do contato próximo e oferecemos nosso consultório com privacidade para que nossos pacientes se sintam à vontade em despir a alma, agora as análises acontecem através de uma tela, de um telefone ou de mensagens de texto. Isto é, da forma como cada um se sente mais confortável para falar de suas dores. Passamos ainda a entrar na casa ou nos automóveis dos nossos pacientes, ou seja, são eles que nos levam para onde tem privacidade. É extraordinário ver que as análises prosseguem; as pessoas precisam falar sobre isso, as pessoas estão empenhadas em manter seu processo analítico, entrar em contato com novas aflições, além daquelas que já se apresentavam antes.

Penso ser um privilégio fazer análise ou intensificá-la durante essa pandemia, porque ajuda a entrar em contato com os sentimentos, pensar sobre as angústias e desespero; quem sabe também isso ajudará no depois, quando tudo isso passar, favorecendo uma melhor elaboração, em caso de se deparar com estresse pós-traumático.

Se o mundo lá fora de algum modo parece ter parado, o mundo que existe dentro de cada um de nós não estagnou, ao contrário, permanece agudo em movimento constante. Os sonhos acordados estão meio tímidos, esmaecidos pelo medo e a instabilidade, mas os sonhos dormindo surgem com uma riqueza de detalhes sem igual. Sinal de processo de elaboração em curso de um momento de angústia intensa com necessidade de digerir psiquicamente uma enxurrada de informações e sensações; morte de entes queridos, perdas, impossibilidade de se despedir; trauma, esse excesso que invadiu o psiquismo de todos nós.


Na rotina do dia a dia como psicanalista sou testemunha de um liquidificador de sentimentos e sensações que se misturam, todos ao mesmo tempo: o medo, o desamparo, a angústia, o desespero, a euforia, a tristeza, a negação, a dor, o luto, a melancolia, a aflição, entre outros; além de uma acanhada esperança ou a angústia pela falta dela. Surge também um desejo de ajudar as pessoas, a empatia e a solidariedade se despontam em meio ao caos.


Além disso, estamos diante de uma situação que não só promove o surgimento, mas que também intensifica questões psíquicas pré-existentes, sejam elas emocionais ou psiquiátricas, que se apresentam com uma série de sintomas exacerbados que merecem atenção.


O que se pode pensar é que existe o risco iminente de contaminação por outro vírus, o ‘vírus’ da desordem emocional, que promove o desequilíbrio mental, o pânico e o desespero, que atacam a mente e destrói nossa capacidade de pensar e consequentemente de nos protegermos.

Temos uma realidade que nos imobiliza, frustra, revela nossa impotência diante do real medo de adoecer e morrer, e, que coloca em evidência nosso modo de funcionar no mundo.

Ninguém estava preparado para viver essa experiência, estamos todos impactados e aprendendo a lidar com essa nova realidade. Vamos pouco a pouco artesanalmente ajudando nossos pacientes a separar e juntar as peças como em um quebra-cabeça, o que ajuda a dar algum sentido.

É preciso calma e sabedoria. Não existe um mapa que nos conduza ou receita pronta que nos ensine como atravessar essa ponte, o jeito é fazermos uso da criatividade. Deste modo permaneço em um processo contínuo de me re-inventar diariamente e aproveito as experiências ricas que tenho vivido sobretudo nas análises de crianças pequenas através das telas; é preciso brincar.


É preciso se desprender do que se foi, acreditar no que somos para perceber através de outros ângulos as novas possibilidades a partir do que temos; é com isso que trabalhamos.

O que percebo até aqui com tudo isso que estamos vivendo é que o que mais importa é o vínculo, o tipo de relação que fazemos. A distância física é um fato, mas não impede de nos aproximarmos afetivamente.

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