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  • Renata Bento

“O DIVÃ E O TRIBUNAL DE JUSTIÇA”

O fato é que em algumas situações é indispensável a interferência do Tribunal de Justiça. Na sua grande maioria a tão desejada “justiça” não está lá. Trata-se principalmente das dores do divórcio e seus desdobramentos. A depender do regime da união dos cônjuges os “bens” podem ser divididos, mas em relação ao (s) filho (s) não acompanham o mesmo princípio; mas o afeto investido, esse não pode ser restituído. No meio a tantas discussões e determinações existe o processo de luto para entender, processar e vivê-lo. O afeto investido pelas partes precisará retornar a cada pessoa a partir da elaboração das marcas que aquela ferida da separação deixou. Tem-se portanto, uma equação complexa para ser digerida emocionalmente, além de uma série de situações objetivas para administrar. Quando a parte emocional não é vista e atendida, é possível que o sofrimento aumente, pois questões objetivas podem vir a travar em alto nível. Um divórcio destrutivo, mau conduzido emocionalmente, deixa marcas profundas, por vezes irreparáveis!


O ser humano desde da sua primeira infância é exposto a esta situação de separação, a começar com o parto no qual ele já terá que lidar. Primeiro o recém-nascido sai daquele habitat o qual ficou por meses. Nesse lugar tão especial onde ele tinha tudo a seu tempo conforme suas necessidades. Após o nascimento, vem a fase do desmame, outra separação, que por vezes pode ser estanque, dependendo do caso. Posteriormente na fase escolar acontece outra separação dessa mãe, ou seja, serão inúmeras separações durante a vida de cada um de nós, seres humanos.

A separação de uma relação conjugal, sobretudo o divórcio, reatualiza e convoca muitas vezes a outras separações ocorridas durante a vida de uma pessoa.

A dissolução do casal por vezes é uma das experiências da vida adulta que mais mobiliza e traz sofrimento, aos próprios adultos e às crianças. Porque trata-se de uma situação que em algum momento fazia todo sentido, depois tornou-se irreparável, e em um outro determinado momento aquele casal perdeu o sentido, tornando-se insustentável a manutenção da relação conjugal. Engana-se quem pensa que o sofrimento só advém para quem decide pela separação. Chegar a essa conclusão requer em alguns casos muita angústia e reflexão até se conseguir comunicar ao parceiro (a) sobre a decisão tomada. Ambos sofrem, cada um do seu jeito e de acordo com suas reservas emocionais.


Atualmente para tratar de assuntos conflituosos tem sido comum a procura pelo consultório para, ao invés de judicializar, conversar. A ideia é buscar um ponto de equilíbrio, um pensar diferente, com o auxílio de um psicanalista com experiência em Vara de Família. Temos alguns advogados mais sensíveis que sugerem aos casais em processo de separação que procurem dialogar com um profissional da área. Este com experiência em Vara de Família trás a luz da compreensão a desconstrução de ilusões, de certezas e sentenças mágicas. Algumas das reflexões por exemplo seriam: “deveríamos entregar a decisão de nossas vidas a um terceiro? A um juiz? Esta seria uma decisão assertiva a ser tomada? Será possível que essas pessoas somente amparadas por seus advogados, chegassem a um acordo, a um consenso? Ao se pensar nos filhos, como poderia ser positivo para eles, uma vez nascidos nessa estrutura familiar, como seria a convivência com ambos os pais? Com que frequência? Seria possível se pensar em uma pedagogia do divórcio?”

Uma entrevista a um psicanalista auxiliaria a iluminar o casal nesses pontos conflituosos, antes de decidirem direto pela justiça.


Ao invés de judicializar, ou antes de tomar de fato essa decisão, algumas conversas acerca dos conflitos podem ser importantes para o esclarecimento e amadurecimento de pontos comuns aquela família.


A pergunta que normalmente é feita é: “pode ser demorado todo esse processo? Na verdade não se sabe, pois irá depender da abertura de ambos para uma tentativa de diálogo, até porque, o processo judicial em si já é mais demorado, e vai do mesmo modo demandar psiquicamente amadurecimento, ainda que se tenha o advogado na condução do caso.


Os ressentimentos acumulados, os choros represados nos dão notícias dos afetos que foram compartilhados, além disso das decepções e das expectativas que não puderam ser realizadas. Quando essas dores podem ser transformadas em palavras, têm-se a possibilidade de se ganhar um novo sentido, um novo sentimento que não somente o ódio. O sentimento de rejeição alimenta a raiva e esta interfere negativamente na capacidade de lidar com as perdas. Em uma separação todos perdem por um lado e/ou ganham por outro.


Romper o ciclo de hostilidade é difícil. Justamente porque nesse movimento se mantém um tipo de elo, um vínculo destrutivo. É nesse vínculo empobrecido que muitas pessoas permanecem brigando, e deste modo, estagnadas presos a um ciclo de angustia. E podem permanecer assim por anos, ou até mesmo uma vida inteira.


Buscar a melhor condução para divórcios positivos em espaço de continência afetiva aos ex-cônjuges, preservando o melhor o interesse dos das crianças e adolescentes e arejando os sentimentos, têm sido cada vez mais um desafio possível com resultados positivos.

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