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  • Renata Bento

A PAIXÃO E SEUS EFEITOS

Atualizado: 3 de dez. de 2020



Amor e paixão são sentimentos diferentes, o primeiro pressupõe a realidade e pode ser duradouro, o segundo é um mergulho no escuro dos aspectos mais primitivos do próprio narcisismo projetado no outro; há um esvaziamento de sí mesmo e tem tempo para acabar; ou, é possível que surja o amor para o descanso do tumulto da paixão.


Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas (1993), na voz de Riobaldo declara: “só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se agente sente amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.


Toda paixão é sofrida, até quando é correspondida. O sujeito apaixonado não admite a separação e a falta; o instante que antecede a separação, mesmo que por breves momentos, é experimentado como um tormento. Isso ocorre porque a paixão é um estado psíquico regido quase que exclusivamente pelo ‘princípio de prazer’, isto é, a realidade não é levada em consideração; já o amor, ao se admitir o objeto (o outro), levaria em consideração o ‘princípio da realidade’, ou seja, a existência de uma outra pessoa com suas imperfeições e fragilidades.


Importante ressaltar que as relações amorosas admitem idealizações e ilusões no momento da instauração dos laços afetivos, isso faz parte da construção de uma relação a dois; sem isso fica difícil acreditar no futuro do relacionamento. Essa crença e esse desejo fazem parte do apaixonamento, mas aos poucos a idealização cede espaço a aspectos da realidade.


Amar pressupõe sentimentos ambivalentes, isto é, perceber no outro as partes desfavoráveis, nem tão belas ou idealizadas assim, mas que apesar disso, vale a pena o investimento afetivo. A paixão não deve ser considerada um excesso de amor, a paixão é excesso dela própria, são sentimentos distintos, onde um tem a ver com quantidade, excesso e cegueira e o outro tem a ver com qualidade.


Do ponto de vista do senso comum, dizer que fulano tem paixão pelo que faz ou é apaixonado por alguém, pode ser visto como algo sublime; há um tipo de investimento afetivo significativo que é depositado de forma intensa, que faz os olhos brilharem, mas que também é idealizado; e nesse caso, ao se pensar em um relacionamento afetivo que em um percurso de tempo, esse movimento fixo de adoração baseado na idealização não cede lugar a realidade, promove desdobramentos difíceis por serem carregados de emoções fortes e sofridas que podem levar a um empobrecimento emocional do sujeito; Por esse viés, a paixão poderia ser considerada saudável? E quando ela tende a ser considerada patológica?

A palavra PATOLOGIA é derivada do grego páthos, e PÁTHOS, significa “sentimento de sofrimento, paixão, afeto”. Já a palavra PAIXÃO vem do latim passio- onis que significa passividade, sofrimento, ato de suportar”. Patologia e paixão tem em comum o mesmo radical, páthos; isso nos faz refletir sobre os aspectos do sofrer encontrados nos sentimentos de paixão. Na filosofia a paixão significa uma espécie de categoria oposta a ação, seria algo de passivo, ato de sofrer. A Paixão de Cristo retrata todo esse sofrimento e sacrifício.


Freud, 1914 afirma que ‘devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequências de frustrações, formos incapazes de amar”. Para ele, amar juntamente com trabalhar seriam uma das formas de saúde mental. E onde ficaria a paixão?

A paixão, diferente do amor, tem características de um sonho onde a realidade está de fora; o sujeito apaixonado está fusionado ao objeto. É um estado que retira o sujeito do eixo de sua vida ao projetar de forma maciça, aspectos onipotentes e idealizados, isso ocorre porque o que é projetado no objeto idealizado é o que chamamos em psicanálise de ego ideal. O ego ideal é um termo utilizado por Freud que representa um retorno ao narcisismo primário infantil, isto é, uma volta ao estado primitivo ilusório de perfeição sentido por meio de identificação com suas figuras parentais. O sujeito apaixonado faz um retorno fantasioso desse sentimento de ser a perfeição de seus pais, junto ao desejo alucinatório de perfeição que é projetado no outro, seu objeto idealizado, o que seria uma tentativa frustrada de completude narcísica.


O amor não é o destino da paixão, somente as vezes isso pode ocorrer. Nesse caso, os apaixonados vivem o sentimento da paixão e conseguem se abrir para aspectos da realidade, onde a falta, a incompletude aceitação da ambivalência fazem parte da relação. Além do amor podemos pensar em outros dois destinos para a paixão: um seria aquele tipo de paixão que queima por ela própria, com a mesma intensidade que veio, queima e apaga como um processo de combustão. O destino com maiores consequências seria o da fixação em um estado patológico como a melancolia, que na impossibilidade em fazer luto de toda essa idealização, o sujeito sucumbe e fica devastado. Há uma distinção feita por Freud (1917) a respeito do luto e da melancolia. No luto a vida se torna triste, pobre e vazia, isso é um movimento natural, saudável que tende a ser superado, já na melancolia é o próprio ego que se empobrece, sendo assim um estado patológico.


Pouco adiantará tentar acordar o sujeito e revelar aspectos da paixão durante a experiência da cegueira do apaixonamento, a pessoa está ‘fora da área de cobertura’ (da realidade). O sujeito apaixonado está obcecado, tem pressa e teme a rejeição por acreditar não poder viver sem sua paixão. O curioso é que embora na paixão tenha um objeto, ele não é reconhecido como tal. Entretanto, se puder fazer desse limão uma limonada, o sujeito apaixonado posteriormente, quando a paixão cessar, poderá ao olhar retrospectivamente para sua experiência, aprender muito sobre ele próprio e sobre seus sentimentos. A paixão nos conta a historia de um ego ideal que deveria ter sido elaborado, mas não pôde, para então abrir espaço para um investimento afetivo menos idealizado. O ego ideal através de um processo de elaboração do desenvolvimento psíquico deverá se transformar em ideal do ego, neste segundo, através de um longo percurso emocional o sujeito passará a levar em consideração aspectos da realidade, como o reconhecimento de suas próprias fragilidades, a vulnerabilidade e a finitude; aspectos esses mais humanos e menos idealizados sobre sí mesmo e o outro.

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