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  • Renata Bento

A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA VIDA APÓS O DIVÓRCIO

Atualizado: 9 de ago. de 2020


Nota-se que muitas pessoas quando se separaram têm grande dificuldade em superar os obstáculos e seguir em frente com suas vidas. Vivem amarguradas e em busca de algo que justifique a dissolução da união, tornando-se reféns de si próprias, e/ou importunando a vida do(a) outro(a), principalmente através dos filhos. Ficam presas a uma vida pretérita, com dificuldades no presente e sem expectativa de esperança no futuro. É natural que no início tenha-se muita dor pela ruptura, até mesmo quando a separação já era apontada como a melhor alternativa para o casal. Separar, de fato, não é simples.


Neste sentido, falo da dor e da necessidade de elaboração. O divórcio pode ser considerado uma grande crise da vida adulta porque desorganiza tudo, deixando a pessoa com velhos e novos problemas, o que requer um imenso trabalho interno. Esse trabalho pode começar pela quebra da idealização da família perfeita, já que família perfeita está longe de existir. Além disso, vem a angústia por se sentir fracassado na construção de uma casa representada por esse ideal de relação e de família.

Tudo isso não será resolvido através de uma sentença judicial, apenas uma parte o será. É bem verdade que em não havendo melhor alternativa, recorre-se ao judiciário. Todavia, no tribunal serão avaliadas as situações objetivas. O que quer dizer que, apesar da necessidade do processo judicial, o tribunal não será o melhor local para cuidar dos conflitos emocionais.


O processo judicial é muitas vezes utilizado inconscientemente com esse fim, e, neste sentido, observa-se que há brigas infinitas onde se espera uma restituição de todo investimento emocional depositado naquela relação; uma solução que ninguém, tampouco o judiciário tem competência para resolver. Neste caso, trata-se de atravessar o luto (a dor) e de ressignificar a própria história e isso poderá ser feito pela própria pessoa com acompanhamento psicológico. Falar sobre as dores em local apropriado pode ajudar a desbloquear a vida emocional e fazer nascer a esperança de uma realidade diferente.

Algumas pessoas saem tão machucadas das relações que acreditam que não irão mais se relacionar amorosamente e fecham-se na crença de que toda a sua disposição emocional deverá ser depositada na criação dos filhos. Entretanto não percebem ou não acreditam que os filhos também necessitam, para o desenvolvimento e amadurecimento emocional, de que os pais, adultos, sigam em frente com sua vida pessoal equilibrada, além dos cuidados com a prole. Muitas vezes na impossibilidade de lidar com o vazio, por exemplo, permitem que o(a) filho (a) ocupe o espaço livre em sua própria cama, colocando a criança em um lugar que não pertence a ela, criando assim um novo problema.


Faz bem aos filhos terem o próprio lugar em sua casa bem como saber que cada um tem o seu espaço. Além disso, é bastante positivo que observem que seus pais não estão paralisados apenas nos cuidados com eles, que sim cuidam e preservam-nos, mas que também têm outras necessidades como: o trabalho, os amigos e um novo relacionamento. Tudo isso em equilíbrio significa que a vida está seguindo e é muito positivo.


Quando os pais sofrem demasiado com sentimentos de dor, culpa ou traição, torna-se quase impossível acreditar que possa existir alguma via de esperança em um novo cenário. Aí está o engano. Passada a maior turbulência, está-se diante de uma redefinição da vida familiar que sugere aprender a conhecer e delimitar seu próprio território, estabelecer seus padrões, buscar acordos, tentar cultivar a comunicação a respeito dos filhos e evitar importunarem-se mutuamente sem necessidade. Aos poucos começarão a adquirir capacidades que lhes permitirão dizer um adeus lento, mas definitivo à sua antiga relação conjugal e deste modo deixar livre o espaço para estabelecer uma nova.


Com muita frequência, nota-se, em perícia psicológica, que uma das maiores dificuldades que os ex-casais apresentam é a falta de compreensão de que é preciso modificar a forma como lidar e/ou falar com aquela pessoa que um dia fez parte de sua intimidade. Isso serve tanto para as brigas quanto para a forma amorosa que pode ter existido. Buscar brigar todo o tempo, insultar, humilhar ou agredir verbalmente o (a) ex-parceiro (a) pode significar ressentimento, entre outras coisas, de que ainda não está confortável ou não entendeu que houve ruptura da relação, isto é, ainda não se separou emocionalmente. Quando bem elaborada a separação, seu reflexo será visto externamente em sua própria vida, em suas relações, na forma como lida com os filhos e com o (a) ex-cônjuge.


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